Porque "faz o que gostas" pode ser um dos piores conselhos no início da carreira
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Este é o conselho mais repetido, mais emocional e mais sedutor da cultura pop contemporânea. Poucos são tão repetidos em universidades, conferências e discursos “inspiracionais”. E poucos criam tanta ansiedade em pessoas no início da carreira. Porque a maior parte dos jovens não sabe exatamente o que adora fazer. E mesmo quando sabe, raramente percebe como transformar isso numa carreira sustentável.
Este é o conselho mais repetido, mais emocional e mais sedutor da cultura pop contemporânea. Poucos são tão repetidos em universidades, conferências e discursos “inspiracionais”. E poucos criam tanta ansiedade em pessoas no início da carreira. Porque a maior parte dos jovens não sabe exatamente o que adora fazer. E mesmo quando sabe, raramente percebe como transformar isso numa carreira sustentável.
O problema é que este conselho parte de uma ideia profundamente romântica sobre trabalho: a de que existe uma vocação escondida dentro de cada pessoa à espera de ser descoberta. “Se fizeres o que adoras, acordarás todos os dias energizado, realizado, completo.” É uma narrativa bonita, mas amplamente enganadora. A realidade costuma ser bastante menos cinematográfica. Talvez ainda mais perigoso, a ideia transforma a relação com o trabalho numa experiência de consumo. "O que é que este trabalho me oferece?" – mentalidade de paixão – em vez de "o que posso oferecer a este trabalho?" – mentalidade de artesão.
O que Cal Newport descobriu sobre paixão e carreiraA sua conclusão em So Good They Can’t Ignore You é desconfortável: a satisfação profissional surge, frequentemente, depois de alguém se tornar extraordinariamente competente numa área que o mercado valoriza. E isto muda completamente a lógica. Porque significa que, no início da carreira, talvez seja mais inteligente perguntar: “Em que é que me posso tornar realmente bom?” do que: “O que é que adoro fazer?” A diferença parece subtil. Mas não é. A paixão não deve ser perseguida como se fosse um destino turístico.
O que acontece quando escolhes uma carreira com base na paixãoQuem organiza a carreira exclusivamente à volta de paixão tende muitas vezes a abandonar cedo demais aquilo que ainda não recompensa. Confunde desconforto com falta de vocação. Perde interesse quando o entusiasmo inicial desaparece. E entra num ciclo constante de procura pelo trabalho “certo”. Mas quase tudo o que vale a pena profissionalmente começa por ser difícil, repetitivo ou frustrante. A satisfação aparece habitualmente depois da competência começar a gerar autonomia, impacto, reconhecimento e crescimento.
O que mostram as carreiras em PortugalSe olharmos para a vastíssima maioria das funções que compõem os territórios corporativos, e especialmente para as camadas de cima, a pergunta é: qual é a paixão que alguém perseguiu aos vinte anos e que o levou a ser, aos quarenta e cinco, diretor de marketing de uma grande seguradora? Ou diretora de recursos humanos de um banco? Ou responsável de estratégia de um retalhista? Ou responsável de mercados internacionais de uma casa de software? A maioria das pessoas que conheço, contentes com o seu trabalho e que ocupam cargos relevantes nas principais empresas em Portugal, não tinham aos vinte anos paixões relacionadas com o trabalho que desempenham atualmente ou sequer com os mercados onde o desempenham.
Como se constrói satisfação profissional a longo prazoPorque gostar do trabalho raramente vem apenas da atividade em si. É o que resulta de sermos bons a trabalhar: gostamos do respeito dos nossos pares. Da confiança que depositam em nós. Da autonomia que uma reputação sólida proporciona. Da compensação que reflete o nosso valor de mercado. De saber que estamos a crescer. De estarmos envolvidos em projetos de valor acrescentado e com impacto na vida dos outros. Tudo isto são consequências de competência comprovada, não de paixão declarada. A paixão pelos resultados da competência – o impacto, o crescimento, o reconhecimento, a influência – é infinitamente mais sustentável do que a paixão pela atividade em si.
Fazer o que se gosta é um ponto de chega, não um ponto de partidaFazer o que se gosta é um privilégio que se conquista depois de se construir capital de carreira suficiente para ter opções reais. E a forma de construir esse capital não é perguntando "o que me apaixona?" É sendo inegavelmente bom numa coisa que o mercado valoriza. Na verdade, as pessoas não se apaixonam apenas pelo trabalho. Apaixonam-se pela pessoa que conseguem ser quando se tornam realmente boas a trabalhar. A paixão não deve ser o mapa. É o prémio.
Perguntas frequentes sobre paixão e escolha de carreira Devo escolher uma carreira com base na minha paixão?Não necessariamente – e especialmente não no início. A paixão por uma área raramente é suficiente para construir uma carreira sustentável. O que os estudos e a experiência real mostram é que a satisfação profissional tende a aparecer depois de desenvolvermos competência genuína numa área que o mercado valoriza. A paixão é frequentemente uma consequência de sermos bons no que fazemos, não uma condição prévia para começar.
O que é "capital de carreira" e como se constrói?Capital de carreira é o conjunto de competências, experiências e reputação que acumulamos ao longo do tempo e que nos dão opções reais no mercado de trabalho. Constrói-se através de prática deliberada, exposição a contextos exigentes, feedback constante e disposição para aprender mesmo quando o trabalho ainda não é gratificante. Quanto mais capital de carreira tens, maior é a tua autonomia para escolher projetos, empresas e condições que se alinham com o que valorizas.
Porque é que tantas pessoas bem-sucedidas dizem "faz o que gostas" se o conselho pode ser enganador?Porque falam a partir do fim da história, não do início. Quando alguém chega a um ponto de realização profissional genuína, é natural que sinta que "sempre adorou" o que faz. Mas o que raramente se conta é o percurso: os anos de trabalho difícil, as funções pouco glamorosas, o desconforto de aprender sob pressão. O conselho "faz o que gostas" descreve bem onde essas pessoas chegaram – mas não explica como lá chegaram.
